Preso na Tunísia um lusodescendente suspeito de integrar grupo terrorista


Publico, 30.01.2006

Preso na Tunísia um lusodescendente suspeito de integrar grupo terrorista

Ana Cristina Pereira

A mãe, originária do distrito de Braga, faz campanha em França para « o mundo
perceber que o país não cumpre as leis internacionais ». O crime do filho, diz, foi
ter surfado na Internet
Teresa Quintas Chopin, natural do Prado, Vila Verde, lançou um apelo aos artistas
portugueses. Omar Chlendi, o filho de 23 anos, é um dos seis « internautas de
Zarzis », presos por alegado uso da Internet para fins terroristas. A mãe está a
organizar um concerto de solidariedade em Bourse du Travail, Saint Denis, França,
com « músicos de várias partes do mundo ». Precisa de vozes.
Teresa emigrou para França há 35 anos. Casou jovem, teve seis filhos, separou-se.
« As crianças deviam ter três nacionalidades, porque nasceram em França e são filhos
de uma portuguesa », que também é francesa. Mas o pai « não deixou ». Quis que fossem
só tunisinos, como ele.
A mãe ainda tentou registá-los no Consulado de Portugal em França, só que então já
era tarde. Os filhos já estavam longe. O ex-marido « fugira » com eles para a Tunísia.
O mais velho contava nove anos, o mais novo ia nos três. Cresciam em Zarzis, Sul de
Túnez. Teresa passou 18 anos, de alma suspensa, no muro do seu desgosto, a tentar
recuperá-los.
Um a um, conforme terminavam o ensino superior, os filhos enfrentavam o pai e
tornavam a França. Queriam « sair do país e não tornar a meter lá os pés, porque
aquilo é um regime totalitário ». Em 2003, um acidente matou-lhe uma filha. A
rapariga que restava não aguentou mais. « Roubou o passaporte ao pai ». « Não trouxe
mala, roupa, nada – foi directa da faculdade para o aeroporto ». Para trás ficou só o
mais novo, Omar Chlendi. Despenhara-se.
Presos em Fevereiro de 2003, os « internautas de Zarzis » foram sentenciados em Abril
de 2004 por formarem « um bando de malfeitores », com o propósito de « preparar
atentados », e por « roubo e posse de produtos explosivos ». O recurso deu origem a uma
redução de pena, que o tribunal supremo confirmou. Omar, condenado ao abrigo da lei
anti-terrorista, expia 13 anos.

Usou um Publinet
Teresa concentra a vida que a percorre no filho encarcerado. Envolveu representantes
da Amnistia Internacional, dos Advogados Sem Fronteiras, da Federação Internacional
de Defesa dos Direitos Humanos. O grupo sobre detenção arbitrária das Nações Unidas
está a analisar o caso.
« Na Tunísia há o problema da Internet, eles serviram de exemplo », acredita. Os
jovens ousaram utilizar os serviços de um Publinet (um cybercafé tunisino) e
proferir críticas políticas. Omar estava no primeiro ano da faculdade. « Quando os
jovens chegam aos 20 anos, dizem mal do Governo ».
A polícia levou-os. Durante 18 dias « ninguém soube deles ». Afiançam que « foram
pendurados, batidos, torturados, tudo ». Um deles diz mesmo que foi objecto de abuso
sexual e de ameaça de violação da mãe e a irmã à sua frente. Outro faz questão de
explicar que nem é muçulmano.
Durante o julgamento, os réus negaram todas as acusações que lhe eram imputadas.
Todos (menos o professor que foi implicado por dois estudantes durante o
interrogatório) alegaram uso de tortura para arrancar confissões falsas. O juiz
apelidou as torturas de « imaginárias ».
Que provas foram apresentadas em tribunal? « Folhas tiradas da Internet, que ninguém
sabe de onde vieram, nem quem as copiou, porque não têm referências, datas, nomes;
um cartão de telemóvel e um tubo de cola escolar », atesta a mãe. « Não há mais nada,
nada ». E, « entre Fevereiro e Junho de 2003, nem os advogados de defesa estavam ao
corrente do que eles iam apresentar ».

Reunir alguns fundos
Esgotadas as várias instâncias judiciais tunisinas, Teresa ainda concentra todas as
esperanças num só dia, o da libertação do filho – « O meu trabalho agora é fazer com
que mundo perceba que aquele país não aplica as leis internacionais, não respeita os
direitos humanos ». Acha que « se os europeus soubessem o que se passa, não havia
tanto turismo na Tunísia – Eles tapam tudo, só deixam ver aquilo que querem que se
veja e isto da Internet pode acontecer a qualquer um ».
O concerto de 17 de Fevereiro deverá publicitar o processo. Teresa espera que « algum
cantor português se abra » à iniciativa. Está « a organizar tudo – há música de várias
partes do mundo ». « Também tenho de reunir alguns fundos, porque preciso de me
deslocar muitas vezes e não tenho outra ajuda além do meu trabalho », refere. Tem 46
anos, trabalha « numa casa de pessoas idosas ».
Para a mãe ver o filho na prisão de Bordj El Amri é preciso envolver a diplomacia
francesa – « Não tenho direito, porque sou estrangeira, o Consulado de França na
Tunísia tem de pedir autorização à direcção dos Serviços Prisionais ». E o tempo,
esse escultor impiedoso, não pára de correr contra o filho que para ela parou na
infância. Os joelhos do jovem Omar « estão muito infectados ». « Para ele se ter de pé,
é preciso um guarda pegar nele ».
Chegará um dia em que não haverá mais pranto, sequer memória. Para já, o silêncio do
seu grito é excessivo. Teresa tornou a casar, mas teve de se « separar, porque esta
história tomou conta » da sua vida. O marido « não podia suportar mais » a sua materna
obsessão. Tem outro filho do segundo marido, que é francês. « A primeira coisa » que
fez, desta vez, foi dar-lhe nacionalidade portuguesa.
« Não quero passar pelo mesmo problema », diz. Não quer ver desaparecer este filho,
como viu os outros. O erro continua a moer-lhe a existência e a dos seus. O rapaz
mais novo está « naquele inferno ». E a rapariga fugitiva já foi ao consulado de
Portugal, mas, para lhe darem nacionalidade, os serviços « exigem um documento que o
pai nega: a certidão de nascimento do pai ».
O processo

As anomalias apontadas pelos advogados e pelos observadores internacionais estão
enumeradas na página de comité de apoio, gerido por Teresa Quintas Chopin
(http://www.zarzis.org). Não houve perícias médicas nem inquérito sobre a tortura,
apesar das queixas. Diz-se que os jovens tiraram os documentos da internet para
aprender a usar armas, onde estão as armas?, questionam. E « onde estão os
elementos que constituem o roubo? » No que concerne aos explosivos, « a fórmula
citada não serve para os fazer ». Mesmo que tenha havido um roubo, não há mais do
que dois jovens supostamente implicados, por que é que os outros foram condenados
por esse crime?, perguntam ainda. A acusação de reunião interdita « não tem
justificação, não houve violação da lei, eles estavam num lugar público ».
Conclusão? « Não foram reunidas condições para haver um julgamento justo, é um
processo onde a defesa não foi escutada, os direitos dos acusados foram
ignorados ». O processo é « uma disfunção da Justiça e que foi
fabricado por razões políticas ». A.C.P.